voyage
O chão molhado que você vê na foto não é chuva. É o Voyage acordando, depois de 12 anos congelado. Ele olha em volta e vê adversários muito diferentes daqueles que enfrentou até 1996. O Fiat Premio era moderno e espaçoso, mas tinha acabamento ruim e câmbio temperamental. O Chevrolet Chevette era bom de câmbio e acabamento, mas ultrapassado e apertado. A Ford tinha o Escort, que não fazia o mesmo perfil mas, num mercado carente de opções, era um rival. Sedã da Renault? Esses o antigo Voyage só conheceu nas praias de Santa Catarina, no verão, com turistas argentinos ao volante.Agora existe Renault fabricado no Brasil, e não há mais bobo no mercado. Prisma, Logan, Siena e Fiesta Sedan são carros com a mesma proposta. Nessas versões de entrada, miram em jovens casais, motoristas que procuram algum status e famílias que precisam de um carro honesto e barato. Em breve teremos ainda a opção do Peugeot 207 Passion, mas, por ora, são esses quatro que o Voyage encontrará nas ruas. É deles que o Volkswagen precisa roubar vendas.
Todos são razoavelmente espaçosos, modernos, bem acabados e de mecânica confiável. Mas não são iguais. Assim parados, fico impressionado com o Siena. Com o Siena? Quem diria... O carro da Fiat foi lançado há 11 anos e vive sua última reforma antes da chegada de um modelo inteiramente novo, mas, ainda assim, é o mais vistoso da turma. E, tirando as rodas de liga leve, é tudo de série: retrovisores, maçanetas e borrachões da cor do carro, apliques cromados e luzes de neblina, além de faróis com bloco elíptico melhores que os de muita gente grande: Civic, Vectra, Mégane...
O Voyage desperta atenção por ser a versão nova do Gol, ele mesmo um modelo inteiramente novo. Mas não enche os olhos, sobretudo nessa versão básica, sem frisos. Suas calotas parecem rodas de liga leve, mas nem o brake-light vem de série. Mesmo assim, o Voyage é o segundo na minha lista de beleza. É sóbrio, tem linhas equilibradas e bom acabamento geral. Nisso ele é melhor que o Fiesta Sedan. O carro da Ford tem um vão enorme entre capô, grade e faróis, e suas rodas (de liga leve, opcionais) parecem pequenas debaixo dos pára-lamas. O Fiesta tem a seu favor o fato de não ter virado carro de frota, em quatro anos de mercado. Prisma e Logan são figura fácil nos pontos de táxi e frotas, com tudo que isso tem de ruim (a banalização da imagem) e de bom (o reconhecimento de gente que precisa de um carro confiável e barato de manter).
O que os taxistas encontram em Logan e Prisma? O modelo da Renault tem espaço interno excelente, melhor que o de muito sedã de luxo. Em largura para os ombros, no banco de trás, vence o Prisma por 15 centímetros. Além de espaçoso, o modelo da Renault é o mais fácil de entrar e sair, com bancos em posição mais alta e portas maiores. Se sua idéia é ter um carro para encher de gente, a melhor pedida é, sem dúvida, o Logan. Mas, se a idéia é encher de gente e viajar rápido, bem...
Desempenho não é o forte de sedãs 1.0. Siena e Voyage são lentos, Logan e Fiesta Sedan são mais ainda. Vazios, andam bem. Cheios, pedem paciência, planejamento e uso intensivo da caixa de marchas (ótima no Volks, boa nos demais). É nessa hora que o Prisma abre uma senhora vantagem. Ele traz um valioso motor 1.4. Com carroceria leve, consegue números de desempenho dignos de carro médio. No 0 a 100 km/h, abriu 5,8 segundos em relação ao Fiesta. Desempenho geralmente está ligado a prazer de dirigir, mas não dessa vez. O Prisma se ressente de ter as rodas mais próximas umas das outras: as bitolas são 10 centímetros mais estreitas que as do Fiesta Sedan e o entreeixos é 19 centímetros menor que o do Logan. O Chevrolet é o mais sensível a movimentos laterais, um exemplo de que maciez nem sempre é sinônimo de conforto. O Logan é o contrário: suas rodas são afastadas como as de um carro médio, e é como um deles que ele anda. Mesmo com calibragem macia de suspensão, é bem plantado no chão. O Siena busca conforto, e consegue. A dupla Voyage e Fiesta tem ajuste firme que busca a esportividade, mas, com motor 1.0, não chega lá. Melhor relaxar as ambições e aproveitar a viagem.
O Fiesta é amplo, mas não veste bem. Seus bancos têm acabamento ruim e o motorista sente-se um tanto solto, porque os bancos são rasos e a caixa de rodas não oferece bom apoio para o pé esquerdo. Mas o carro da Ford tem painel completo e portaobjetos generosos, especialmente se você optar pelo porta-trecos que fica entre os bancos. É o melhor para espalhar as tralhas, cabe até uma garrafa grande de refrigerante. O pior em porta-objetos é o Voyage: a gente fica em dúvida sobre pagar ou não o portamapas das portas (que é vendido à parte). Ele é pequeno demais, mas, pensando bem, os outros que já estão no carro não darão conta sozinhos. Melhor pedir. Tudo no carro da Volkswagen é opcional, e isso pode ser visto de duas formas: é bom porque dá para ter luxos como ABS, airbag ou computador de bordo. É ruim porque, quanto mais específico for o pacote escolhido, menos será valorizado na hora da revenda. Mesmo equipado, o Voyage terá jeito de carro simples. Mas o acabamento é cuidadoso: tudo se encaixa com precisão, os bancos abraçam bem e os tecidos são agradáveis. Prisma e Logan têm acabamento de aparência mais simples, mas durável. O teste de Longa Duração nos permite dizer isso: o Chevrolet acaba de ser desmontado e o Renault, com quase 50 000 quilômetros, está como novo. E, se não estivesse, poderíamos fazer uso de sua garantia, de três anos. É o único carro desse comparativo a oferecer tanto.
O Siena é o que tem mais gosto de carro caro. Traz de série computador de bordo, porta-óculos no teto, volante com regulagem de altura e abertura interna de porta-malas (como Prisma e Voyage) e de tanque de combustível. São coisas que os especialistas em marketing das montadoras chamam de “nice-tohave” – aqueles que o motorista fica feliz de ter, embora não faça questão. É verdade, os mimos do Siena são dispensáveis. Mas muitos compradores de sedãs pequenos querem justamente isso: serem mimados pela primeira vez, depois de anos num carro popular. O Siena é o mais requintado, mas também o mais caro, quando equipamos todos com arcondicionado, direção hidráulica, travas e vidros dianteiros elétricos. Questão de prioridade.
Espaço para bagagem, que seria o item mais importante num sedã, é satisfatório em todos. Siena e Voyage têm bom espaço e a versatilidade de poder baixar o banco traseiro, para levar uma escada ou bicicleta. O Fiesta é quase tão bom quanto os dois, porém sua tampa traseira menor dificulta o acesso. O Logan não abaixa o banco traseiro, mas, em usonormal, tem o porta-malas mais amplo. O Prisma é menor e a passagem para dentro da cabine é apertada, mas também dá conta. Você pode escolher qualquer um dos cinco sedãs pelo gosto pessoal.
O carro perfeito teria espaço de Logan, motor de Prisma, acerto mecânico de Voyage e requintes de Siena. Como não dá, eu fico com o Logan. Não tem vaidade, mas oferece espaço e jeitão de andar dignos de carro grande. O leitor talvez pergunte por que a vitória não é do Voyage – afinal, ele é a versão sedã do Gol, que venceu o duelo de hatches de dois meses atrás. Aquele comparativo dava mais peso ao prazer de dirigir, coisa que o Gol 1.6 tem. Num Voyage com motor 1.0, essa virtude aparece menos. E, entre sedãs pequenos, importa menos.
Deixo o Fiesta em segundo. Só perde em espaço para o Logan e, com a recente redução de preço, ficou quase 5 000 reais mais barato que o Siena (quando equipados com ar, direção, vidros e travas). Com essa diferença de preço, dá para comprar a versão 1.6. O Voyage fica em terceiro. É uma pérola de ajuste mecânico, veste bem e anda bem. Como acabou de chegar, não muda nem sai de linha tão cedo. Ah, se fosse mais equipado e vistoso... Esses valores que faltam ao Voyage sobram ao Siena, mas não chegam a guindá-lo do quarto lugar. O Fiat provavelmente vive sua última reforma, antes de dar lugar a um modelo novo, e nunca primou pelo prazer ao dirigir. Mas massageia o ego do motorista como nenhum outro.
O Prisma é um bom carro, mas lhe falta espaço. Anda muito melhor que os rivais, mas, acredite, na cidade isso não vai fazer tanta falta. E, na estrada, você vai sentir falta do equilíbrio de seus rivais.
VOYAGE 1.0
O Voyage básico vem com detallhes pretos, sem frisos nem aerofólio. A trava elétrica para porta-malas é item de série
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